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por Leonor Areal e Silva
«A simplicidade, é simples ou
é dada?» Tristan Tzara
Num dos seus manifestos mais conhecidos1,
Tristan Tzara, tetravô dos Felizes da Fé, explica aos burgueses, note-se:
aos burgueses, o que é DADA. Nada mais conveniente, portanto, para abrir
esta prelecção sobre esses tempos passados, que uma boa recomendação aos
burgueses, a classe predominante hoje em dia. Dizia então Tzara: «DADA não é
loucura, nem sabedoria, nem ironia, olha-me, simpático burguês.»
Foi o que eles fizeram. Durante as décadas seguintes,
os académicos do Dadaísmo nunca desistiram de estudar o fenómeno mais
ilógico de toda a história da cultura ocidental, e descobriram nele, com
extraordinária perícia, os verdadeiros propósitos dos seus fautores.
«Mas nós, DADA, não somos da opinião deles, porque a
arte não é séria, garanto-vos, e se apontamos o crime para doutamente
dizer ventilador, é para vos dar prazer (...)» respondia, que nem a
propósito, Tzara naquele mesmo manifesto. Passando ao lado da palavra
ventilador, os académicos doutamente concluíram que o propósito
Dada era reagir contra o crime da guerra (na época a de 14-18) – razão
pela qual, mesmo a propósito, se tinham refugiado todos em Zurich, na
Suiça. Nem há outra explicação possível para este exílio nevado que o da
resistência contra a guerra. Curiosamente, em Portugal, país parcialmente
envolvido nessa guerra, o movimento Dada preferiu apoiar as acções bélicas
( «a guerra intensifica os instintos e as vontades e faz gritar o Génio
plo contraste dos incompletos»2
), atitude que os seus netos da década de 90, por alguns chamados de
decadadentistas3,
sempre fizeram questão de manter.
«Depois vieram os grandes embaixadores do sentimento
que gritaram historicamente em coro: Psicologia psicologia hihi Ciência
Ciência Ciência (...)»1,
explica Tzara, com a inevitável premonição transtemporal que dada dá. É
este filão cronogógico, pouco explorado naquela época, pois a teoria da
relatividade ainda era pouco conhecida, apesar de Einstein e Picabia terem
andado juntos no liceu, que os Felizes da Fé vão aprofundar na década de
80, numa quase obediência cega às exortações originais de Tzara: «Dada é a
vida sem pantufas nem paralelos; que é contra e a favor da unidade e
decididamente contra o futuro»1.
O princípio do absurdo lógico é uma das outras veias
dada que os académicos têm tido dificuldade em explicar, e que portanto
têm hábil e discretamente contornado. Como é que eles poderiam explicar
estas outras manifestações de Tzara: «Escrevo um manifesto e não quero
nada, digo contudo certas coisas e sou por princípio contra os manifestos
(...)»4
? Ora, o próprio Tzara o explica, porque dada explica tudo – é
importante não derreter esta ideia – quando afirma, um pouco mais
atrás ou mais à frente: «DADA – eis uma palavra que leva as ideias à caça;
cada burguês é um dramaturgosinho, (...) procura as causas e os fins
(segundo o método psicanalítico que praticar) para cimentar a intriga
(...). Do refúgio estofado das complicações serpentinas, dá os seus
instintos a manipular. Daí os infortúnios da vida conjugal.»
E se é verdade que «contemporary art as we know it
could not have come into existence without Dada»5, ainda é mais
verdade que a arte contemporânea, tal como a conhecemos, se afastou
essencialmente da via dada, até ao surgimento dos Felizes da Fé na década
de 80. E também não é
verdade que «the Dadaists were not content to make art. They wanted to
affect all aspects of western civilization (...)»5.
Que responderia Mr. Tzara a isto? «A arte é coisa privada, o
artista fala para si próprio; uma obra compreensível é produto de
jornalista (...). Precisamos de obras fortes, direitas, rigorosas e incompreendidas para
sempre.»4.
Ao dizer estas últimas palavras, Tzara mal sabia o medonho efeito que esta
frase, dissimulada entre parágrafos opulentos, iria ter durante séculos :
incompreendidas para sempre.
Nos próximos capítulos desta exposição, trataremos
outros temas, a saber: «A espontaneidade dadaísta» e a «Repugnância
dadaísta».
Como dizia ainda Tzara, no seu Silogismo Colonial:
Ninguém consegue
escapar ao destino
- Ninguém consegue
escapar a DADA
-
- Só DADA vos pode
fazer escapar ao destino
1 Manifesto do Senhor
Antipyrina in Sete Manifestos Dada, de Tristan Tzara, Lisboa:
Hiena Editora, 1987, 57 pp.
2 Ultimatum futurista às
gerações portuguesas do século XX, de José de Almada Negreiros in
Portugal Futurista, 1917, red. 1981, Contexto ed.
3 Origem e Decadência dos
Felizes da Fé, Pedro Palmeiras, Mem-Martins: Europa-América, 1999, 298
pp.
4 Manifesto Dada 1918 in
Sete Manifestos Dada, de Tristan Tzara, Lisboa: Hiena Editora,
1987, 57 pp.
5 The International Dada
Archive,
by Timothy Shipe
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