I Congresso Hiperdada

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Mesa Redonda

Os FELIZES DA FÉ e o movimento HIPERDADA

Miguel Wandschneider Gilberto Gouveia Miguel Vale de Almeida Alberto Pimenta
Rui Zink Paula Coelho Nuno Antunes Eugénia Mota

Participantes: Miguel Wandschneider  (Historiador de Arte); Gilberto Gouveia (FF); Miguel Vale de Almeida (Antropólogo); Fernando Aguiar (Performer); Alberto Pimenta (Escritor); Rui Zink (FF); Leonor Areal (Videasta); Paula Coelho (FF); Nuno Antunes (FF); Eugénia Mota (FF); Adelino Tavares (FF), Teresa Pereira (FF) e Rigo 99 (FF).

Miguel Wandschneider Os FF é uma espécie de OVNI na história da performance em Portugal. Os Felizes surgem a fazer performance na rua, ou happening na rua.

Gilberto Gouveia — O que nós fazíamos está mais ligado ao happening do que à performance, e acho que é por aí que distingue.

MW — Eu falo da história da performance incluindo também o happening.

Miguel Vale de Almeida — Tem um lado claramente de happening, ou seja, acontecem naquele momento, acaba... e acabou.

Fernando Aguiar — Na performance sabe-se sempre mais ou menos como é que as coisas se irão passar. O happening é exactamente o contrário. Normalmente há uma ideia básica, mas depois é desenvolvida por muita gente e nunca se sabe muito bem como é que vai terminar. E, no caso dos Felizes, eu penso que eles ficam a meio termo entre uma coisa e outra.

MW — A maior parte das intervenções dos FF, na minha opinião, são mais no campo do happening do que propriamente no campo da performance.

Alberto Pimenta  Ah, não sei, olha, eu... depende do conceito que tu dás a happening. Eu acho precisamente que os Felizes não são bem um happening puro, porque o happening, os primeiros, os clássicos, os americanos – isso veio dos Estados Unidos, não veio de outro sítio – e os primeiros eram individuais. O happening era individual e não colectivo. Sendo colectivo estava mais próximo da animação teatral do que do happening.

GG  O próprio happening, penso eu, acontece muitas vezes em ruptura com a tradição artística. E portanto, as nossa intenções não eram nada artísticas.

Rui Zink  Basta nós estarmos lá para haver o “acontecimento”. Não gosto muito de usar a palavra happening, porque soa muito a franchising, merchandising, coffee-break, Eu penso que a língua portuguesa é suficientemente rica para usarmos expressões portuguesas.

MW — Inclusive, a partir de meados dos anos 80, ou seja, quando os Felizes surgem, começa uma tendência para o abandono da performance. Os FF, aliás, eu acho que aparecem num fim de ciclo e na abertura de um novo ciclo, que vai depois de alguma maneira expandir-se nos anos 90.

RZ — Os Felizes são um marco incontornável, são a fonte.

FA — Sim, olha, isso é curioso.

RZ — É como com o Tejo. As pessoas podem não gostar, a foz é realmente em Lisboa, em Portugal, mas a fonte é em Espanha. Os Felizes, para a performance portuguesa, são a fonte, são a Espanha.

MW — E nessa medida, os FF são um ovni, mas um ovni percursor de uma nova vaga de performance portuguesa, que tem como corolário o fim da história da performance.

FA — Bem, a performance tem tido altos e baixos, cá em Portugal, ao longo destes trinta e tal anos. E pronto, e quando está numa fase mais baixa, digamos assim, as pessoas têm tendência a dizer que a performance acabou. Mas não, tanto não acabou que se continua a fazer performance. Todos os anos se fazem performances.

MW — Hoje fala-se em artes performativas, mas não se pode falar de performance, porque a performance, eu considero que, mesmo que uma ou outra pessoas a faça em Portugal, terminou.

AP — Não, a performance não morreu nada. É possível que haja, em relação à performance, menos surpresa ou menos expectativa, é possível que haja performers menos interessantes, mas a performance morreu tão pouco como o teatro. O teatro, que começou há 2500 anos ou coisa parecida, também não morreu. Passou foi por fases muito diferentes.

MW — A performance terminou. É um fenómeno que pode vir a reemergir, mas terminou.

Leonor Areal — Bem, não nos vamos zangar, mudemos de assunto. Os Felizes, no fundo, escapam a essas classificações.

MW — Em primeiro lugar, eu acho que não se pode perceber o trabalho dos FF sem perceber, ou sem ter em atenção que os Felizes vêm de áreas de criatividade e de expressão muito diversas.

MVA — É um jogo com a linguagem, antes do mais, e com o sentido da linguagem. É um jogo de desconstrução constante do senso comum da linguagem e das verdades feitas contidas na linguagem.

MW — Há obviamente uma literalidade que era muito muito bem, muito bem esgrimida pelos FF. E aí eu penso que o Rui Zink tinha um papel importante.

MVA — É isso que faz que o humor dele é caracterizado, sobretudo quando é falado – e na escrita também ele já domina essa técnica, o que é bastante original – o humor dele é sempre feito na base de dizer uma piada sem ter a atitude de estar a dizer uma piada.

MW — Eram também intervenções sempre muito teatralizadas e com um lado visual e plástico também muito controlado e trabalhado.

RZ — Porque a estética dos Felizes é a de que o acto estético deve ser partilhados por todos, e deve partilhado sobretudo  por aqueles que não sabem que estão a partilhar um acto estético.

MW — Eu não vejo grandes antecedentes ou referentes, em Portugal, para o trabalho dos FF. Também nesse sentido eles são um OVNI.

Paula Coelho — Não sei, não sei se são um movimento de vanguarda ou exactamente o oposto, um movimento de preservação.

AP — Os Felizes enfileiram numa corrente, como te digo, numa corrente de teatro de rua, teatro de animação, que tem uma história bastante antiga. Vai até à Idade Média, assim...

Nuno Antunes — Sabes, eu nunca percebi muito bem o que era os FF, porque eu quando cheguei, já cheguei atrasado, já havia os FF.

RZ — As raízes dos Felizes são as raízes mesmas da arte do século XX.

MW — Logo a partir do início dos anos 70, são fundamentalmente artistas plásticos que se dedicam à performance. Desde o início dos anos 80, há uma contestação do paradigma vanguardista que se tinha afirmado e que tinha a certa altura dominado na década anterior.

LA — E no final dos anos 80, os Felizes da Fé criam o movimento  Hiperdada, vagamente filiado nos dadaístas dos anos 10, 20...

MW — Obviamente que os FF têm essa marca dadaísta, que já nem é neodadaísta, porque o neodadaismo é um fenómeno do final dos anos 50 e do princípio dos anos 60, no campo da arte contemporânea. Mas há, claramente.

MVA — Quer dizer, és tu que estás a atribuir isso. Não podemos nunca partir do princípio que são os próprios, neste caso os FF, que se estão a atribuir essa etiqueta, ou que quiseram fazer as coisas dentro dessa linha.

LA — Não sei se será assim... O que é que vocês, os Felizes, acham?

Eugénia Mota — Eu acho que o movimento Hiperdada foi uma das coisas que trouxe realmente o novo ao que passa na nossa sociedade, cerca de há uns 10 anos para cá. Porque nós em geral somos uns imitadores, que precisamos de aprender pela imitação, e o Feliz veio mostrar o que é imitar.

GG — Uma espécie de Dada sem fim, um dadaísmo que se multiplica a si próprio. Portanto escapa a qualquer tentativa de entendimento ou catalogação.

MVA — Não é só dadaismo. É pegar nas melhores tradições modernas e que são transponíveis para o fim da modernidade, para a pós-modernidade.

AP — Olha, eu não gosto nada do termo pós-moderno, porque é um termo com o qual se quer pôr fim, e se põe fim normalmente aos movimentos, até porque não se assume, não encontrou um nome para si e  foi encontrar um prefixo: pós – é o que vem depois. E o que vem depois é tudo. E portanto, se de facto aceitarmos como pós-moderno o tudo, a totalidade, então os FF obviamente, como todas a s manifestações político-estéticas – porque os FF são político-estéticos, não são só estéticos, nem só políticos – estão na pós-modernidade, pois claro.

MVA — Sim, quer dizer, pós-moderno não quer dizer rigorosamente nada. Diria, contemporâneo, de fim de milénio.

MW — A provocação, a paródia, o curto-circuitar das cabeças das pessoas, das rotinas, dos clichés, das ideias feitas, era uma característica estruturante do trabalho dos FF. E essa provocação pode ser, eu acho que faz todo o sentido, pode ser remetida para... para o dadaismo.

AP — Acho isso perfeitamente absurdo. Então, tínhamos pós-moderno, agora temos hiperdada. Primeiro porque o Dada, o movimento Dada é um movimento que não tem absolutamente nada – não é 0,1 é zero – de política. É rigorosamente e exclusivamente literário. Que eu saiba, não é o caso dos FF. Em segundo lugar, porque o Dada nunca foi para a rua. Fazia em sala os seus recitais ou publicava em revistas. Portanto, eu não vejo nenhuma relação entre uma coisa e outra.

Adelino Tavares — Os Felizes da Fé, eu acho, é uma boa versão portuguesa do... de... do... do alcool dada.

FA — Embora, pelo que eu sei dos dadaistas, eram muito mais anarcas que propriamente os FF. Acho que nesse aspecto, os FF são um bocado mais organizados e mais até bem comportados.

LA — Não sei não... Eu era ali a única pessoa que sabia fotografar e filmar, e então, pronto, fui sempre relegada para esse papel secundário, no entanto importante, porque nos bastidores muita coisa se decide.

PC — Mas o acto fundador de todo este movimento Hiperdada foi quando, em 1984, o Rui Zink organizou a Pornex 84.

MVA — Pois foi, sem dúvida, isso foi o começo disso tudo. Aí sim, atrevo-me a dizer que a Pornex foi precursora desse hiperdadaismo. E vem-me à memória como uma coisa mesmo, mesmo, mesmo  mesmo importante.  Mesmo importante, porque foi feito numa universidade. E foi feito no fim do período – digamos, já na ressaca – mas bem no fim do período das militâncias políticas ainda relacionadas com a revolução de 74. E depois o facto de que  aquilo acontecia numa universidade, onde tu imaginas que a pornografia quando muito vai ser objecto de uma análise do fenómeno em si.

LA — Há certas coisas que eu tenho pena de referir, mas algum dia elas têm que ser contadas. A verdade algum dia terá que se saber...

RZ — Não há razão para estarmos com falsas modéstias, porque a falsa modéstia acaba por ser a pior das arrogâncias.

LA —Pornex, por exemplo. A Pornex foi um evento que eu organizei, eu organizei, com o Rui Zink. Mas ele é que ficou com os louros, e eu estive na sombra.

NA — É bonito ver a grande modéstia de todos os FF. Nenhum de nós se assumiu como o autor das ideias de Marcel Duchamp, por exemplo.

MVA — A exposição foi um happening em si. Foi um happening em si. Que era: de repente tinhas dentro da universidade uma exposição sobre pornografia. É um bocado como defender o Cavaco.

MWHá um lado provocatório que é intrínseco ao trabalho dos FF. Há todo um trabalho político, no sentido de paródia a acontecimentos políticos e às convenções do acto político.

GG — Pelo menos eu, o que pretendia com estas coisas era fazer algo que não fosse tão sério, como habitualmente as coisas são. A originalidade talvez fosse nesse ponto, o ponto de não fazer uma coisa séria, nunca.

MW — Eu acho que as pessoas não percebiam muitas vezes...

GG — Muitas delas não distinguem , não percebem que é ficção, que é teatro, e que é faz-de-conta...

RZ — E o choque vinha muitas vezes da falta de compreensão, da falta de entendimento, vinha da falta de comunicação.

GG — Dava a entender que a comunicação com elas quase impossível.

RZ — Mas era uma falta de comunicação que nós próprios queríamos provocar. Porque a comunicação existia, mas o que não existia era a comunicação explícita. E isso suscitava reacções diversas. Havia pessoas que diziam: o que é que eles querem? o que é que eles não querem? o que é que estão aqui a fazer?

RZ — Mas o objectivo era que as pessoas se perguntassem não o que é que nós queríamos fazer, ao fazermos aquelas manifestações, mas o que é que elas queriam fazer, o que é que elas estavam ali a fazer ao passarem na rua àquela hora.

RZ —  No fundo queríamos despoletar nas pessoas uma consciência de si, uma consciência dos seus passos quotidianos. No seu quotidiano indigente e despido de sentido, nós introduzir precisamente a questão do sentido, para as pessoas se perguntarem: o que é que eu estou aqui a fazer?

MW — Eu acho que o trabalho dos FF era obviamente circense, mas era um trabalho muito sério.

AP — Era um trabalho... que consiste em Felizes agitarem a mente popular, para a por a pensar sobre alguns assuntos em que ela normalmente não pensa.

GG — E nessa altura o assunto da nossa reflexão era a facilidade com que conseguíamos aparecer nos jornais.

MW — Os FF era um fenómeno bizarro, excêntrico, para o jornalismo lato sensu, e apareciam na primeira página ou na página três ou na última página, com uma fotografia muito grande, porque era uma coisa que se tinha passado na Rua Augusta de insólito.

GG — Porque o facto de nós ao fazermos um disparate, pode ser considerado um disparate pegado, conseguirmos aparecer nas primeiras páginas dos diários, e obter entrevistas e fotografias e uma visibilidade que penso que muitos políticos não têm  e gostariam de ter, penso que isso pode ser subversivo.

RZ  Em parte, há quem pense que nós somos neo-pós-dadaistas, ou que temos uma estética um pouco anarco-pop. Eu penso que a essência dos felizes tem que ser encontrada no circo romano, quando os cristãos eram lançados às feras.

AP — Acho que é isso. E acho que devia haver mais grupos, é pena haver só um.

AT — Há um buraco de 90 a 94, e é nesse buraco precisamente que estão os FF.

MW — Nos anos 90 surge uma pleiade de grupos que fazem performance na rua.

RZ —  Surgiram montes de grupos, enfim, filhos dos felizes, que começaram a usar a rua como palco para os seus espectáculos. Tornaram-se banais os espectáculos públicos nas ruas da cidade. Tornou-se uma espécie de moda.

NA — Os outros grupos tinham sempre alguém que estava empenhado numa luta e numa cruzada contra algo. Nós não sabíamos muito bem contra que é que os outros grupos lutavam, mas via-se perfeitamente, até na face deles, que estavam a lutar contra qualquer coisa.

RZ   Estes grupos levam-se demasiado a sério. E fazem muitas vezes um tipo de encenação proto-simbólica, para a qual convocam os elementos químicos e alquímicos - terra, ar, fogo, água - de uma forma que eu diria talvez entediante.

NA — Nós nunca percebemos muito contra é que devíamos lutar.

RZ — Os Felizes nunca foram para a terra, fogo, água... Nunca foram simbólicos,  porque os Felizes são a própria simbólica em si. Todo o gesto é simbólico, não é preciso sublinhar que o é. Quando se sublinha que um gesto é simbólico, está-se a ser redundante. E eu penso que essa é grande diferença entre os Felizes e os outros grupos.

RZ — As manifestações dos Felizes, por definição, são espontâneas. São manifestações em que nós nos reunimos e, sem ensaios prévios, apenas com a perfeição do improviso, nós fazemos a coisa acontecer.

NA — Durante a primeira semana estávamos a discutir ideias. Púnhamos sempre a discussão das ideias à frente de tudo.

RZ Era auto-organização.

Teresa Pereira — Lembro-me que era um dia antes, íamos fazer cartazes e uma reunião com o pessoal, para saber o que é que íamos fazer. Mas era uma cena bastante improvisada, muito de momento.

PC — Claro, nós só organizamos as coisas, depois a espontaneidade vigora.

GG — Encontrávamo-nos todos umas horas antes. Havia sempre tintas e papéis...

RZ   Cada um escrevia nos cartaz aquilo que queria escrever.

GG — Toda a gente dava ideias para frases, para slogans.

EM — Uma explosão de ideias que pareciam que não vinham de ninguém, mas ao mesmo tempo vinham de todos.

NA — Nós chegámos a fazer espectáculos com mais de meia hora de ensaio! Desde comprarmos as coisas até deslocarmo-nos para o sítio, tomar umas cervejas, fazer a tal reunião de discussão de ideias, demorava meia hora.

MW — Havia uma maîtrise disciplinar, sem que eles estivessem muito preocupados com a disciplina – eram muito indisciplinados desse ponto de vista – mas esse domínio dos códigos de expressão, visuais, literários ou fazendo uso da palavra, teatrais, tiveram um encontro muito feliz nos Felizes da Fé.

NA — Portanto, as pessoas ficavam sempre surpreendidas com o investimento, porque o investimento era brutal. Como é que em meia hora se conseguia fazer o investimento de 15 dias? Espantoso!

RZ   Tínhamos uma ideia-chave e depois a partir da ideia-chave juntávamos uma série de conceitos. Usando a técnica do amontoado, acumulávamos, sobre o conceito-base, vários conceitos.

MVA — O Rui apresenta o conceito, e a partir daí contamina as pessoas, como um vírus, e elas desenvolvem ideias, mas também desenvolvem defesas, e aí devem chegar a consensos sobre coisas a fazer. Agora a partir daí a coisa deve ser relativamente anárquica, portanto, ela não é muito planeada, não tem ensaios no sentido estrito do termo.

MW — Por exemplo, as coisas na Rua Augusta têm uma estrutura previamente elaborada e concertada dentro do grupo, mas depois, há uma boa dose de imprevisibilidade e de espontaneidade no decurso da intervenção.

LA — E depois há uma força motora inexplicável quase...

MW — O exibicionismo do Rui Zink...e o dom para a palavra espontânea do Rui Zink, eram um elemento  motor muito importante das manifestações dos FF. Ele era aliás o homem do megafone.

AP — Mas suponho que ele é o animador do grupo, se lhe quisermos chamar assim, preferia chamar assim a líder.

NA — Eventualmente havia um líder. Havia um líder, porque sem um líder, não existe... não existe... sem um líder não existe ordem.

PC — Os FF funcionam sem hierarquias, porque elas são espontâneas. Não é? Falávamos há bocado de espontaneidade do grupo. A espontaneidade começa por essa: a hierarquia é espontânea.

MW — Eu penso que devia haver uma grande democracia interna, democracia de base, voto no ar, centralismo democrático...

Rigo — As manifestações eram organizadas em diálogo, e as decisões eram geralmente tomadas por unanimidade.

MW — Os FF fariam um trabalho político, eu acho, sem estarem permanentemente a explicitar essa dimensão política do seu trabalho. Ela era congénita.

NA — Quando foi aquela manifestação de apoio ao Doutor Oliveira Salazar, havia pessoas de esquerda, havia pessoas de direita, havia até pessoas que ficaram ao centro.

RZ — Os Felizes foram tanto para esquerda, que deram a volta completamente e acabaram por ir parar à direita.

LA — E no entanto, o grupo entrou em decadência e não fizeram mais nada...

AP — Essas coisas é normal — não digo decadência — têm o seu período de vida, como qualquer organismo.

NA — Ao longo da história da arte, nunca nenhum grupo tão inútil tinha feito trabalho durante tanto tempo.

FA — Eu penso que tem a ver com o crescimento ou com os desenvolvimento das pessoas.

GG — Houve um fenómeno de crescimento, e o crescimento provoca sempre problemas.

MVA — Tenho uma certa sensação que a coisa teve o seu tempo.

GG — Depois a partir de um certo momento, os FF começaram a actuar por convite. Deixou de ser um grupo de intervenção.

MW — Os FF é um fenómeno adolescente.

FA — Quando chegam aos trinta e tais, começam a ter outras preocupações e outros interesses.

MW — Depois as pessoas matam-se a trabalhar...

FA — Outros se calhar porque casaram ou têm filhos, principalmente elas...

MW — E depois também não há pachorra para estar a perpetuar as coisas.

GG — Aí os Felizes começaram a se transformar numa outra coisa, que seria um grupo de animação.

RZ   A juntar a isto, houve um factor externo. Tornaram-se banais os espectáculos públicos nas ruas da cidade. Quando uma coisa é tornada banal, os Felizes aí desaparecem, deixa de haver sentido para trabalharmos.

GG — Não se pode dizer que tenha acabado, mas que está em hibernação.

MVA — Não sei se continua a haver FF.

FA — Eu penso que desapareceram. Pelo menos nunca mais ouvi falar...

NA — Os FF apareceram. E depois desapareceram, o que é perfeitamente natural.

MW — Eu acho que os FF correspondem a um ciclo na vida de cada um dos seus elementos.

LA — Acho que esta discussão está a ficar um bocado estéril. Se acabaram ou não, isso é o que se há-de vir a ver. O que interessa aqui é falarmos daquilo que os Felizes são - sendo ou tendo sido, tanto faz.

AP — Os FF definem-se como Felizes da Fé, e definem-se pelo fizeram. E o que fizeram é normalmente o suficiente para os descrever. Nem há outra descrição possível de uma obra que não seja a própria obra. É aquilo que se descreve melhor a si mesmo.

RZ — Basta dizer que os FF são os FF.

NA — Não se pode acrescentar mais do que isto.

Lisboa, aos 3 de Julho de 2000


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