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por António Santos
1. Introducção
De Saussure a Deleuze, muitos foram os gramáticos,
linguistas e antropólogos que procuraram explicar o efeito inusitado que a
linguagem hiperdada consegue operar no campo sócio-mental da população.
Este breviário, não obstante, procura elucidar, numa terminologia mais
acessível, o segredo desse efeito, bem assim como explicar definitiva e
concretamente esse efecto.
2. Preêmbolo
Importa, antes ainda de atacar o assunto, explicar, aos
leitores menos versados nestas matérias, o significado do termo inusitado
neste contexto linguístico: efecto inusitado significa
propriamente uma reacção de incompreensão da mensagem hiperdada, seguido
de uma fase de confusão mental de progressão lenta, ao cabo da qual,
passados cerca de 10 a 15 minutos, o ouvinte incauto recobra do “transe
inusitado” para chegar à conclusão de que disfarçar será a melhor atitude
a ter, num contexto em que, entre as bocas abertas dos demais transeuntes,
se começam a desprender alguns esgares abafados ou sibilantes. Assim, na
fase final, o espectador começa a rir-se e chega a um estado de “demência
inusitada” (boca descaída e olhos vidrados) que o obriga a suspender
qualquer tipo de juízo, perdendo concomitantemente o siso. Este efeito, no
entanto, passa rapidamente, cerca de um minuto, após o fim da acção
hiperdada que o provocou, deixando o transeunte inusitado num estado de
satisfação pós-coitada que ele traduz, na sua linguagem simples, pela
expressão feliz «há cada maluco», o que significa em linguagem técnica,
que ele ganhou 3 pontos percentuais de mobilidade psico-conceptual e se
considera mentalmente mais são do que antes da acção terapêutica exercida
contra sua vontade, é claro, visto que era inusitada.
3. Uso da Língua
Para não maçar o leitor, leigo para o desenvolvimento,
com pormenores técnico-abstractos, passemos aos exemplos concretos, que
são a melhor fonte de conhecimento informal. Previna-se, no entanto, de um
dicionário de latim, muito útil em caso de lacunas. Seleccionámos, para
si, alguns dos melhores slogans jamais criados pelos Felizes da Fé, os
verdadeiros percursores e únicos modelos credíveis da estética
hiperdada.
3.a. «Vão subir na vida, malandros!»
Com cinco palavrinhas apenas, esta só frase é capaz de
confundir e interditar o raciocínio a cerca de 80% da população portuguesa
alfabetizada. Porquê - perguntará o leigo perplexo, pois nada vê nela
assim de tão especial. É uma frase que parece bem batida, não contém
calão...- e no entanto perturba. Na verdade, ela é uma irmã siamesa da
outra frase tão ouvida: «Vão trabalhar, malandros!», frase tão ouvida
pelos próprios Felizes da Fé, nas suas primeiras aparições em Lisboa
(ainda antes da plena integração de Portugal na CEE). O povo, nessa época
ainda bastante atrasado, não conseguia atingir o estado inusitado e caía
logo no estado de saciedade que acusa de loucura aqueles que são, apenas,
mais inteligentes. Este tipo de incidentes linguísticos (da parte de
elementos da população que não conseguiam atingir o extâse inusitado) foi
amplamente reportado pela imprensa da época, na altura, também pouco
clarividente e que incautamente se fez vox populi.1
Uns anos mais tarde, já após as grandes campanhas do
cavaquismo, os Felizes responderam, trocando a palavra «trabalhar» por
«subir na vida», o que, desde aquela época até aos dias de hoje, significa
praticamente o mesmo. Ou seja, os Felizes substituíram uma palavra comum
pela sua expressão sinónima mais próxima, e isso que tem de especial? –
perguntará o leitor menos arguto.
Acontece que a frase tem mais umas palavrinhas, que não
podemos negligenciar: «Vão trabalhar» é uma forma verbal perifrástica de
carácter imperativo – e por isso denuncia uma atitude autoritária, de
agressividade ou de prepotência moral (neste caso). E «malandros», embora
seja uma palavra doce e até carinhosa, num contexto imperativo chega a
roçar o insulto. Resumindo, e isto todos os leitores já sabem, era quase
escusado explicar, mas a ciência a tal obriga, é uma frase boa para
aplicar, por exemplo, a vadios (que não trabalham e são malandros), mas
principalmente – sobretudo e unicamente – a rapazolas (malandros e que não
trabalham) e sobre os quais a vox da idade tem autoridade moral
considerada suficiente para se meter onde não é chamada, que é assim que
se chamam estas coisas (pode o leitor discordar). Esta frase é muito
antiga, do tempo em que os rapazes de 14 e 15 anos deviam começar a
trabalhar para serem homenzinhos e responsáveis. (Os Felizes da Fé, não
tinham uma idade assim tão verde, mas, nos anos 80, podiam ainda ser
considerados puros adolescentes, como aliás os especialistas
afirmam.2)
(Os populares não podiam adivinhar que eles já trabalhavam, mormente o
trabalho como FF que era um trabalho muito sério, de acordo com os mesmos
especialistas.3)
Mas o leitor, embora confundido entretanto por esta
hábil teia de raciocínios, ainda mantém a dúvida original: e isso que tem?
Onde é que está o efecto especial? O efeito inusitado está em
substituir (sim, já se sabe...) um processo (trabalhar) pelo objectivo
(subir na vida) e alargar assim o campo conotativo da frase. O que antes
era: ‘vocês que não trabalham, deixem de ser malandros’ agora
transformou-se em ‘vocês que são malandros, tratem de subir na
vida’. Inverteu-se a polaridade da frase: o pólo moralista passou de
‘trabalhar’ para ‘malandros’. Daí o efeito de perturbação que esta frase
causa. Em vez de significar ‘se és malandro, vai trabalhar (a
actividade honesta por excelência), e deixa de seres malandro’,
passa a ser: ‘se és malandro, vai subir na vida, que é o que os
malandros sabem fazer’. Esta deslocação mínima do sentido é que causa
a perturbação – apenas naqueles para quem subir na vida é um desejo
assumido, mas que sabem que às vezes é preciso ser malandro para o
conseguir. É como que insultar as crenças mais essenciais de uma população
para quem subir na vida é o único modelo cultural. Mas é difícil, para um
incauto sem estudos, diagnosticar a perturbação.
Esperemos que o leitor tenha ficado suficientemente
aturdido para não conseguir rebater estas conclusões. O próximo exemplo é
mais simples:
3.b. «Estamos a ser filmados pela televisão»
Esta era precisamente a frase inscrita no verso do
cartaz (único cartaz desta manifestação4) que transportava
a frase anterior, já muito batida. Uma frase simples, sobre a qual há que
colocar as seguintes questões:
1º - Qual a razão para declarar que se está a ser
filmado pela televisão?;
2º - Estavam os FF realmente a ser filmados pela
televisão? Ou pretendiam estar? A que televisão se referiam eles?
Respostas:
1ª - A razão para se declarar que se está a ser filmado
pela televisão, são várias possíveis: a) porque quem é filmado é
importante, b) porque toda a gente quer ser importante e c) quer ser
filmada, d) porque assim as pessoas se aproximam mais da cena na esperança
de serem filmadas, e) porque vão dar mais importância ao que está a
acontecer porque está a ser filmado, f) porque chama a atenção, g) porque
apela aos desejos mais íntimos da população, h) porque era uma nova
tecnologia, i) porque a televisão não estava a filmar.
2ª - a) os FF não estavam a ser filmados pela
televisão, b) nem pretendiam estar, c) mas queriam fazer crer que o
pretendiam, d) e estavam até a ser filmados por uma câmara amadora, e) que
aos olhos da população podia passar perfeitamente por ser da televisão, e)
embora não fosse esse o intuito da existência dessa câmara, f) que não
estando lá, não alteraria em nada a força do slogan e da manifestação.
O leitor, certamente, começa a ter vontade de exigir
alguma explicação mais consistente, mas não há. A razão por que os FF
declararam que estavam a ser filmados pela televisão é que não estavam, e
isso é o suficiente. Chama-se a isso assertividade à raiz do
absurdo. E embora o leitor possa tentar rebater esta teoria com as
várias razões enunciadas nas respostas 1 e 2, saiba que não tem razão. O
que aqui está em jogo está muito para além da razão. O que poderá
verificar no próximo e último exemplo:
3.c. «O Fim do mês está próximo!»
Foi com esta célebre frase que os FF iniciaram a sua
carreira ofuscante. Caídos no meio da Rua Augusta com este cartaz entre
outros, pretendiam transmitir a ideia de que a aproximação do fim do mês
era um perigo a evitar. Porquê? perguntariam os transeuntes. Não é esta a
pergunta adequada para uma proposição de um absurdo tão radical que
ninguém, na época, compreendia. Só algumas manifestações mais tarde,
quando o fim do mês calhou em Agosto é que um jornalista brilhante teve o
extraordinário bom senso de explicar o desejo de parar o tempo pelo desejo
de que as férias não acabassem.5 Viva o bom senso.
O que escapava também às pessoas naquela altura era o extraordinário humor
da situação e da citação: «O fim do mundo está próximo» era o slogan
apregoado pelo lunático visionário da história de Tintin «A Estrela
Misteriosa». Só em 1999, os Felizes pegariam finalmente na frase original,
para aclamar o bombardeamento da Jugoslávia pela NATO e se possível o fim
do mundo sérvio. O leitor ainda não achou graça? Também para isso existe uma
razão:
4. Conclusão
Depois de se explicar tudo isto, é importante dizer-se
que nada do que aqui foi escrito substitui ou sequer diminui a força pura
de cada um destes slogans, que só se oferece ao entendimento a um nível de
emoção estética impossível de transmitir sem ser pela percepção áspera de
um certo tipo de humor. Ou se entende ou não se entende.
Por favor, envie as suas perguntas
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