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por
Hugo Bola
Dada a recente exibição
ibérica do filme Geração Feliz, chegam-nos ecos e reacções que fazem suscitar algumas reflexões teóricas.
Ao
contrário do que se ouve dizer, a provocação dos Felizes da Fé não
é inconsequente. É consequente. E é uma espécie de revolta contra as
convenções mentais da sociedade e contra as ideias-feitas das pessoas.
Mas uma revolta feliz, sem rancores, pelo uso saudável (e até terapêutico)
do humor e da ironia. O humor, de um modo geral, é mais fácil de
perceber, porque faz rir. A ironia é que costuma levantar alguns problemas de compreensão, porque exige do receptor o domínio de códigos
afinados pelo mesmo comprimento de onda do emissor. E se isso não
acontece, a comunicação torna-se impossível, estigma que tem
acompanhado os Felizes da Fé desde sempre.
Como que para provar que a
comunicação é impossível, surgiu o documentário Geração Feliz, que também usa e abusa da técnica
de ironia e assim confunde o espectador, que é obrigado a
fazer exercícios de malabarismo: o que levar a sério e o que não
levar?
Levar
a sério a crítica política (a manifestação a favor do governo de
Cavaco, uma demonstração por absurdo), ou levar como brincadeira para
dar umas gargalhadas? Levar a sério a manifestação a favor
da Nato e da guerra na Jugoslávia (outra demonstração por absurdo),
ou não levar? Levar a sério os (verdadeiros) defensores dos animais,
quando se manifestam em S. Bento contra o «assassínio» de 2 ou 3
touros em Barrancos, e não levar a sério os Felizes da Fé, ou
vice-versa?
Levar
a sério a importância do grupo, assumida por alguns com pose mais
pretensiosa, ou levar a brincar essa pretensão como uma crítica à
mania generalizada dos seres humanos se acharem pessoas muito
importantes? (Falácia
de que os jornais e a tv são mediadores conscientes, e os leitores
receptores inconscientes.) No filme, o espectador percebe esse snobismo
e irrita-se com ele, apenas porque ele é exagerado,
assumido e caricatural; e no entanto, é-o como crítica às pessoas sérias
a sério, e à credulidade com que bebemos essas categorias do sucesso
e da notoriedade...
Levar
a sério o movimento Hiperdada, aparente designação forjada perante o
desconhecimento de todos, ou não levar a sério os ismos e paraísmos
que alguns artistas incompreendidos de outras décadas
inventaram e perpetuaram até hoje?
Levar
a sério as contribuições teóricas de um historiador de arte e de um
antropólogo, quando as suas frases são completamente manipuladas
(através de montagem com outras frases a eles alheias) para fazer
parecer que eles disseram o que não disseram? Afinal, pouquíssimos
espectadores se apercebem de que a estrutura deste documentário tem um
objectivo de falsificação da realidade (e como referência clássica,
F for Fake
de Orson Welles). E este objectivo, ao contrário de dissimulado, é
declarado, quando se colocam em diálogo taco a taco pessoas
que não estão em presença uma das outras, mas que, através da
montagem de frases curtas, parecem estar a concordar e a discordar umas
das outras. E este processo tão simples de desinformação, à vista
dos olhos de todos, apesar de tudo resulta, ou seja, as pessoas
acreditam na treta; porque a verdade é que quando as pessoas vêem
televisão não pensam, nem podem pensar, quando não se lhes dá tempo
para isso, quando o ritmo acelerado com que as coisas acontecem não
lhes permite senão apreender o essencial para acompanhar a narrativa
das imagens. Se se apercebessem disso, certamente compreenderiam como
toda a informação televisiva, dos noticiários à publicidade,
passando pelos documentários tidos por sérios, são a mesmíssima
construção de realidade tal como ela não é. Perceberiam que a
importância de certos actantes de um documentário é aquela que o documentário sobre
eles cria e a partir do momento em que o faz; que a história, social,
cultural, política e tudo (a História) se faz de golpes de celebridade
forjados a partir do anonimato das pessoas comuns. A diferença entre os
realmente célebres e ricos e os pobres felizes da fé é que uns se
levam muito a sério e os outros se limitam a fazer pouco deles, sem que
eles percebam, porque a comunicação é impossível.
Assim,
também este documentário é impossível de compreender, porque não se
permite deixar o espectador tranquilo e acomodado à certeza daquilo que
vê; ou impossível de aturar, porque suscita reacções de rejeição; ou impossível de se lhe resistir, porque surge como uma
sequência de surpresas mais ou menos desconcertantes, mas em avalanche,
sem deixar espaço para respirar, para pensar. Um documentário impossível,
em suma.
Um
documentário feliz da fé? Um documentário
inconsequente de tipo dadaísta? Sério ou pouco sério? Pouco sério
porque não se pode acreditar em tudo o que nele é dito? Ou sério,
porque não pretende enganar o espectador, se ele não quiser ser
enganado. Sério como os outros, porque manipula as crenças do
espectador sem ele perceber como, ou sério, porque o
avisa de que está a ser manipulado pelos verdadeiros sérios.
Aliás,
um documentário consequente, rigoroso e hábil, que, fazendo uso dos
recursos mais vulgares do documentário main stream (arquivos fílmicos, depoimentos pessoais, debate de pontos de vista, contextualização
historicista, conjuntura política, etc.), pretende demonstrar as técnicas
de manipulação e distorção dos factos. E esta demonstração é
dupla, porque, sendo explícita, não deixa de ser eficaz. E assim, ao
tentar explicar executa, e ao executar explica-se. Mas só numa segunda
leitura analítica isto é visível, porque a verdade é que à primeira
todos caem, já que as regras do cinema não são as da razão, mas as
da persuasão.
E
à primeira, todos caem: que o grupo acabou, é dito no início do filme
(pela voz absoluta do narrador, em off como Deus); e que houve problemas dentro do grupo que provocaram a sua queda (como em
todos os filmes sobre grupos, invariavelmente extintos, e fazendo vénia
ao documentário sobre os Monty Python, de 1989). No final não se percebe bem quais foram esses problemas, porque
surgem tantas versões diferentes, mas o espectador regista que alguma
coisa houve. Que uns acusem os outros de roubo ou de tráfico
de drogas, isso não é de estranhar. Levar a sério ou não levar? (Mas
que realizador sem escrúpulos faria a difamação pública dos próprios
informantes do seu filme? Que os há, há). E afinal, nos últimos cinco
minutos, prova-se que o grupo continua vivo e activo. O espectador foi
enganado durante todo o filme, mas é levado a acreditar que o grupo
renasceu. A credulidade do espectador foi explorada pela utilização
elementar de tropos que ele reconhece e aceita sem resistência. E passam a vida a fazer-nos
isso, mas ninguém faz nada. (Prazer de ser enganado?)
Passam a vida a
impingir-nos lugares comum, imagens feitas, clichés, banalidades, falsidades, mentiras e omissões. Mas ninguém se revolta,
nem vem para rua protestar ou provocar a consciência dos outros, nem
nada. Porquê?!
P.S. Porque não há outros
como os Felizes da Fé.
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